O Conselho Regional de Serviço Social de Mato Grosso do Sul (CRESS-MS) manifesta veemente repúdio à atuação da Tropa de Choque da Polícia Militar do estado, que, na manhã do dia 27 de novembro, invadiu as aldeias Jaguapiru e Bororó, em Dourados, e utilizou força contra indígenas que protestavam diante da prolongada falta de água potável.
A crise hídrica nas comunidades Kaiowá e Terena é um problema histórico que se arrasta há décadas, resultado de negligências estruturais e institucionais. Nos últimos meses, essa situação se agravou devido à interrupção frequente do fornecimento de água, que vinha sendo realizado por caminhões-pipa. Diante dessa realidade, as comunidades, que abrigam cerca de 20 mil pessoas, iniciaram bloqueios de rodovias e ruas como medida de pressão por soluções definitivas, incluindo a perfuração de poços artesianos.
Após anos de tentativas de diálogo com os órgãos competentes, incluindo o envio de documentos e a realização de reuniões sem qualquer resposta concreta, as lideranças locais decidiram adotar medidas mais incisivas, como os protestos recentes. A frustração e indignação são agravadas pela percepção de que a resolução da crise é tecnicamente simples, mas carece de vontade política. Em vez de apoio ou soluções, as comunidades enfrentaram repressão por parte do Estado.
O CRESS-MS, em consonância com o conjunto CFESS-CRESS, reforça sua solidariedade às comunidades indígenas e o reconhecimento da atuação de assistentes sociais indígenas, que desempenham papel fundamental na luta por direitos e na promoção da autonomia dessas populações. Ressaltamos que a presença e o trabalho dessas profissionais são essenciais para fortalecer a resistência e garantir o protagonismo dos povos originários como sujeitos de direitos.
As assistentes sociais Tatiane Martins Gomes, do povo Kaiowá, e Érica Chistiane Gabriel, do povo Terena, que atuam na Secretaria Municipal de Assistência Social de Dourados, expressaram sua indignação diante da crise hídrica que afeta as aldeias da região. Ambas destacaram a revolta da comunidade em relação às violências cometidas, sobretudo contra mulheres e crianças. “É um direito básico da comunidade ter acesso à água, mas todos continuam sofrendo com o descaso e as promessas não cumpridas ao longo dos anos”, afirmaram.
A entrada da polícia no território, que entrou pela Missão Caiuá e atravessou parte da aldeia Jaguapiru, foi caracterizada como uma invasão. A ação gerou pânico entre os moradores, especialmente entre crianças e estudantes que estavam saindo das escolas. De acordo com Érica, no momento da abordagem, as mulheres estavam reunidas cantando e realizando suas rezas, e não havia qualquer pessoa armada. O bloqueio das estradas reflete o limite do esgotamento após inúmeras tentativas de diálogo frustradas para assegurar o acesso à água potável. Ignorados repetidamente pelas autoridades, os moradores enxergam o ato como uma expressão de resistência e uma luta legítima por direitos fundamentais.
Para a assistente social Tatiane Martins Gomes, a defesa dos direitos territoriais indígenas é uma continuidade da luta histórica da profissão. “É essencial termos resiliência e sensibilidade para compreender as especificidades dos territórios indígenas, que estão cada vez mais vulneráveis aos impactos da emergência climática”, destacou. Tatiane destaca que os assistentes sociais, junto ao conjunto CFESS/CRESS, têm o compromisso de aprofundar o debate sobre questões relacionadas ao meio ambiente, à educação ambiental e à proteção dos territórios. Para ela, esses temas não apenas ampliam o campo de atuação profissional, mas também são essenciais para promover a construção de uma sociedade mais justa, equitativa e sustentável.
O CRESS MS reforça seu compromisso com a defesa intransigente dos direitos humanos e repudia qualquer forma de violência ou criminalização contra as comunidades indígenas, que buscam apenas condições mínimas de sobrevivência e o respeito à sua dignidade.
28/11/2024
Gestão: lutas emancipatórias, Justiça Social e Diversidade/CRESS-MS



