A trajetória profissional de Maria Clara Meurer revela o compromisso histórico do Serviço Social com a luta pela terra, pela democratização de direitos e pela valorização da agricultura familiar no Brasil. Assistente social e servidora da Agência de Desenvolvimento Agrário e Extensão Rural (Agraer), além de conselheira do CRESS-MS, Maria Clara iniciou sua militância no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), experiência que, segundo ela, foi fundamental para o desenvolvimento de sua consciência de classe e sua opção profissional pelo Serviço Social.
Na década de 1990, enfrentou desafios pessoais para concluir a formação em Serviço Social em uma universidade particular, em um período anterior à existência de políticas de inclusão para assentados, quilombolas, povos originários e trabalhadores rurais no ensino superior. Essa vivência singular, no centro das lutas agrárias, moldou sua compreensão acerca da importância da educação e das políticas públicas como instrumento de emancipação social.
Ao ingressar no serviço público, Maria Clara passou a acompanhar, com olhar crítico e comprometido, a implementação de políticas públicas direcionadas à agricultura familiar que ela mesma reivindicara enquanto militante. Entre essas políticas, destacam-se os programas de aquisição de alimentação, que garantem a compra de produtos da agricultura familiar e promovem a segurança alimentar e nutricional de populações vulnerabilizadas.
Nesse percurso, um tema que se sobressai é o das agroindústrias familiares, estruturas de pequeno porte que articulam a produção e o processamento de alimentos no território rural. Para Maria Clara, essas iniciativas exercem um papel estratégico no desenvolvimento local e na promoção da autonomia das famílias produtoras, apesar de, muitas vezes, permanecerem invisíveis nas agendas municipais e estaduais de desenvolvimento econômico.
Vulnerabilidades sociais no meio rural
A assistente social aponta diversas vulnerabilidades enfrentadas pelas famílias rurais envolvidas na produção de alimentos. Entre os principais entraves estão:
- A dificuldade de acesso ao crédito rural, em especial devido à burocracia e à lentidão dos processos bancários, que colocam os agricultores familiares em desvantagem frente a grandes produtores.
- Os altos custos de produção, incluindo insumos, tecnologias e práticas de manejo adaptadas às mudanças climáticas.
- O impacto dos agrotóxicos na qualidade dos produtos e na saúde das comunidades, bem como os desafios relacionados à adoção de práticas sustentáveis, ainda muitas vezes inviabilizadas pelos custos envolvidos.
Essas questões, evidenciadas no cotidiano das comunidades, colocam em relevo a necessidade de uma intervenção profissional que vá além da mera orientação técnica, incorporando análise social crítica e promoção de direitos.

O papel do Serviço Social
Para Maria Clara, a atuação do Serviço Social junto à agricultura familiar envolve compromisso com a classe trabalhadora e resistência às contradições sociais que marcam o campo brasileiro. Segundo ela, “não podemos ir a essas realidades sem desconstruir preconceitos; se nos deixarmos guiar pelo nosso Código de Ética, nossa atuação terá êxito e as comunidades rurais terão uma profissional aliada”.
Nesse sentido, o Serviço Social contribui para que as famílias ampliem sua autonomia, organização e acesso a direitos, atuando de forma integrada com comunidades rurais na luta pela implementação, consolidação e manutenção de políticas públicas estruturantes.
Impactos sociais da formalização produtiva
A formalização das atividades produtivas no campo vai além de ganhos econômicos. Maria Clara observa que, com o avanço dos processos de organização produtiva, as famílias experimentam:
- A elevação da autoestima, ligada ao reconhecimento do trabalho por meio da rotulagem e identidade dos produtos.
- O protagonismo feminino nas agroindústrias, com participação expressiva das mulheres nas decisões de gestão.
- A permanência dos jovens no território rural, fortalecendo vínculos familiares e comunitários.
Esses aspectos evidenciam que a formalização e a organização produtiva têm desdobramentos sociais significativos, reforçando o papel do Serviço Social na promoção de desenvolvimento territorial sustentável.
Relevância do debate para o Serviço Social
O debate sobre produção de alimentos, formalização produtiva e trabalho no campo é eminentemente político e ético para o Serviço Social. Maria Clara relembra sua participação em ocupações de terra e defende que a luta pela democratização da terra está diretamente ligada à redução das desigualdades sociais, ao acesso à subsistência e ao fortalecimento da agricultura familiar como direito social.
Nesse sentido, a defesa do acesso à terra e a promoção de condições dignas de vida no meio rural não são apenas demandas setoriais, mas parte integrante da luta por justiça social, compromisso central da profissão. “A agricultura familiar produz alimentos, produz vida”, sintetiza Maria Clara, ao reafirmar a importância de uma atuação profissional que reconheça o direito à terra como condição para a efetivação de direitos civis, sociais e econômicos.



